Os Concílios
Os ConcíliosEstudo 7 de 8

Niceia II (787)

A controvérsia das imagens e por que os protestantes rejeitam suas conclusões.

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No ano de 787 d.C., mais de trezentos bispos reuniram-se novamente na cidade de Niceia — a mesma cidade que, quatro séculos e meio antes, fora palco do concílio que definira a divindade de Cristo — para tratar de uma questão bem diferente, mas não menos apaixonadamente disputada: era legítimo produzir e venerar imagens (ícones) de Cristo, da Virgem Maria e dos santos? Essa controvérsia, conhecida como a 'controvérsia iconoclasta', dividiu o Império Bizantino por mais de um século, envolveu perseguições violentas, destruição sistemática de obras de arte sacra, e produziu um concílio — o Segundo Concílio de Niceia — cujas conclusões permanecem, até hoje, um dos pontos de maior distância entre a tradição ortodoxa/católica romana e a tradição protestante.

1. As origens da controvérsia iconoclasta

Ao longo dos séculos IV a VII, a prática de produzir e venerar imagens religiosas — ícones de Cristo, Maria, apóstolos e mártires — havia se tornado profundamente enraizada na piedade popular do cristianismo oriental, especialmente em Constantinopla e nas regiões monásticas. Essas imagens eram tratadas com veneração ritual: beijadas, incensadas, colocadas diante de velas, carregadas em procissões, e a elas eram atribuídos, em muitos casos, poderes milagrosos de proteção e intercessão.

Em 726, o imperador Leão III, o Isáurico, iniciou uma campanha oficial contra o uso de imagens religiosas, ordenando sua remoção e destruição em todo o império — política que ficou conhecida como iconoclastia ('quebra de imagens'). As motivações de Leão III são debatidas pelos historiadores: alguns apontam influência do rigoroso monoteísmo islâmico e judaico, que rejeitava categoricamente qualquer representação visual da divindade, especialmente após os notáveis sucessos militares muçulmanos que pareciam demonstrar o favor divino sobre um povo que evitava a idolatria imagética; outros apontam para preocupações genuinamente teológicas sobre o segundo mandamento do Decálogo, que proíbe explicitamente a fabricação de imagens de escultura para fins de culto (Êx 20:4-5). Seu filho e sucessor, Constantino V, intensificou drasticamente a campanha iconoclasta, convocando um concílio em Hiéria (754) que condenou formalmente a veneração de imagens, e promovendo perseguições severas contra monges iconódulos (defensores das imagens), muitos dos quais foram torturados, exilados ou mortos.

2. João Damasceno e a defesa teológica dos ícones

O mais importante defensor teológico da veneração de imagens foi João Damasceno, monge que vivia sob domínio muçulmano em Damasco (o que, ironicamente, o protegia da perseguição iconoclasta bizantina, permitindo-lhe escrever livremente). João argumentou que a encarnação de Cristo havia mudado fundamentalmente a relação entre o divino e o material: se Deus mesmo se tornou visível e tangível em Jesus Cristo, assumindo verdadeira carne humana, então a proibição veterotestamentária de representar visualmente a divindade não se aplicaria mais da mesma forma, pois agora Deus mesmo havia se tornado representável, tendo assumido forma humana visível. João distinguiu ainda entre 'latria' (adoração devida somente a Deus) e 'proskynesis' ou 'dulia' (veneração de honra e respeito, apropriada às imagens e aos santos, mas categoricamente distinta da adoração divina) — uma distinção que se tornaria central na defesa posterior das imagens.

3. O Segundo Concílio de Niceia (787)

Sob a regência da imperatriz Irene, que governava em nome de seu filho menor Constantino VI e era pessoalmente favorável às imagens, um novo concílio foi convocado em Niceia em 787, revertendo as decisões iconoclastas de Hiéria. O concílio distinguiu cuidadosamente entre 'adoração' (latreia), devida exclusivamente a Deus, e 'veneração respeitosa' (proskynesis timetike), apropriada às imagens sagradas, argumentando que a honra prestada à imagem se refere ao protótipo representado, não à matéria física da própria imagem.

A decisão do Segundo Concílio de Niceia

'Definimos... que, à semelhança da figura da preciosa e vivificante cruz, sejam colocadas as veneráveis e santas imagens, tanto em cores quanto em mosaico e outro material apropriado... representando a imagem de nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo, de nossa imaculada Senhora, a santa Mãe de Deus, dos anjos honrados e de todos os santos e piedosos homens. Quanto mais frequentemente forem vistas essas imagens representadas, mais os que as contemplam serão levados a recordar e desejar seus protótipos, e a prestar-lhes saudação e veneração honrosa, não a verdadeira adoração (latria), que segundo nossa fé pertence apenas à natureza divina.'

O concílio permaneceria em vigor por relativamente pouco tempo antes de uma segunda onda de iconoclastia surgir sob imperadores posteriores; a controvérsia só seria definitivamente encerrada, a favor das imagens, em 843, num evento comemorado até hoje na tradição ortodoxa oriental como a 'Festa da Ortodoxia'.

4. Avaliação protestante: uma discordância séria e honesta

É neste ponto que a tradição protestante reformada diverge de modo mais claro e substancial das conclusões do Segundo Concílio de Niceia — sendo este um dos poucos concílios ecumênicos historicamente reconhecidos por Oriente e Ocidente que a tradição reformada considera ter errado em sua conclusão principal. A distinção entre 'latria' e 'dulia', embora conceitualmente elegante, carece de fundamento bíblico explícito e, na prática pastoral e popular, revela-se extremamente difícil de manter — a história demonstra fartamente que a veneração de imagens tende, na devoção popular, a deslizar continuamente para formas de idolatria efetiva, independentemente das sutilezas teológicas que a distinguem oficialmente da verdadeira adoração.

O segundo mandamento é explícito e severo: 'Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás' (Êx 20:4-5). O argumento de João Damasceno — de que a encarnação torna Deus 'representável' e, portanto, revoga essa proibição — não convence a tradição reformada, pois a proibição bíblica não se limita a imagens da divindade invisível, mas abrange qualquer imagem produzida com a finalidade de receber veneração religiosa, incluindo imagens de Cristo em sua humanidade, de Maria e dos santos. Além disso, a própria natureza do culto cristão do Novo Testamento é caracterizada por sua ênfase na Palavra pregada e ouvida, nos sacramentos instituídos por Cristo (batismo e ceia), e na oração, sem qualquer instituição apostólica de imagens como meio de culto ou veneração.

Os reformadores do século XVI foram unânimes nessa avaliação, embora com nuances de aplicação prática: Calvino escreveu extensamente contra a veneração de imagens nas 'Institutas', argumentando que toda tentativa de representar visualmente a divindade constitui uma degradação de sua glória incompreensível e invisível, e que a distinção entre latria e dulia, na prática, não impediu a idolatria generalizada que caracterizou boa parte da religiosidade popular medieval. Lutero, embora mais moderado quanto à tolerância de imagens decorativas ou didáticas sem função de culto, também rejeitou categoricamente qualquer prática de veneração religiosa dirigida a imagens.

  • A controvérsia iconoclasta dividiu o Império Bizantino entre defensores e opositores da veneração de imagens.
  • João Damasceno defendeu as imagens argumentando que a encarnação tornou Deus 'representável'.
  • O Segundo Concílio de Niceia (787) aprovou a veneração (não adoração) de imagens, distinguindo latria de dulia/proskynesis.
  • A tradição reformada rejeita essa conclusão, considerando-a incompatível com o segundo mandamento do Decálogo.
  • Calvino e Lutero, com nuances distintas, opuseram-se à veneração religiosa de imagens como prática bíblica.

5. Uma avaliação equilibrada dos concílios

É importante que o leitor perceba, ao final desta série sobre os concílios, que a tradição reformada não trata os concílios ecumênicos como uma categoria monolítica a ser aceita ou rejeitada em bloco. Ao contrário, cada concílio é examinado individualmente à luz das Escrituras, e suas conclusões são recebidas na medida exata em que refletem fielmente a revelação bíblica. Assim, Niceia I, Constantinopla I, Éfeso, Calcedônia, e mesmo Constantinopla II e III, são recebidos com gratidão como testemunhos fiéis da doutrina trinitária e cristológica bíblica; já o Segundo Concílio de Niceia, apesar de sua autoridade histórica no Oriente e no Ocidente medieval, é avaliado como tendo se desviado, neste ponto específico, da clareza das Escrituras quanto à proibição da veneração de imagens. Essa capacidade de discernimento seletivo, e não de aceitação ou rejeição automática da tradição conciliar, é precisamente o que distingue a hermenêutica reformada — sujeita, em última instância, apenas à autoridade suprema da Escritura (sola Scriptura) — de posições que atribuem autoridade infalível automática a toda a tradição conciliar da igreja indivisa.

Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

Êxodo 20:4

6. Aplicação para hoje

A questão das imagens continua relevante, não apenas na comparação entre protestantismo e catolicismo/ortodoxia, mas também na reflexão sobre como representamos visualmente a fé cristã em nossa própria cultura — filmes sobre a vida de Cristo, ilustrações bíblicas, arte cristã contemporânea. A preocupação reformada não é necessariamente contra toda representação artística de temas bíblicos (uma questão de aplicação prática sobre a qual cristãos reformados historicamente divergiram em algum grau), mas especificamente contra qualquer prática que transforme uma imagem em objeto de veneração religiosa, oração dirigida, ou meio de graça espiritual — pois isso usurpa o lugar que pertence exclusivamente à Palavra pregada, aos sacramentos instituídos por Cristo, e à oração dirigida diretamente a Deus, sem mediação de objetos materiais.


Palavra Final

O Segundo Concílio de Niceia nos lembra que nem toda decisão conciliar, mesmo daquelas reconhecidas historicamente como ecumênicas, está isenta de erro, e que o teste final de toda doutrina e prática cristã permanece a Escritura Sagrada, e não o consenso institucional, por mais venerável e antigo que seja. Que adoremos a Deus 'em espírito e em verdade' (Jo 4:24), sem imagens, mas com corações plenamente voltados para aquele que é invisível, mas real, e que se revelou verdadeiramente em Jesus Cristo. — Daniel Filho