Depois de Calcedônia, a igreja cristã não encontrou paz cristológica imediata. O cisma entre calcedônios e não-calcedônios (monofisitas) permanecia uma ferida aberta, especialmente dolorosa nas ricas e populosas províncias do Egito e da Síria, cuja lealdade religiosa e política ao Império Bizantino era estrategicamente vital. Duas tentativas imperiais de resolver essa ferida, através de novos concílios ecumênicos, ocorreriam nos séculos seguintes: o Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, que tentou reconciliar os monofisitas por meio da condenação dos chamados 'Três Capítulos'; e o Terceiro Concílio de Constantinopla, em 680-681, que resolveria definitivamente uma nova controvérsia cristológica derivada da anterior: o monotelismo, a questão de saber se Cristo possuía uma ou duas vontades.
1. O contexto: a busca imperial por unidade religiosa
O imperador Justiniano I, que reinou de 527 a 565 e é lembrado principalmente por sua monumental codificação do direito romano e pela construção da basílica de Santa Sofia, dedicou considerável energia política à tentativa de reconciliar os monofisitas com a ortodoxia calcedônia, buscando preservar a unidade religiosa e política de seu vasto império, que incluía tanto regiões majoritariamente calcedônias (Constantinopla, Ásia Menor) quanto regiões majoritariamente monofisitas (Egito, partes da Síria e Armênia). Sua estratégia, influenciada por sua esposa, a imperatriz Teodora, que tinha simpatias monofisitas pessoais, consistiu em tentar demonstrar que Calcedônia, corretamente interpretada, não era, na verdade, incompatível com a cristologia de Cirilo de Alexandria, tão cara aos monofisitas.
2. O Concílio de Constantinopla II (553) e os Três Capítulos
Para agradar os monofisitas sem abertamente abandonar Calcedônia, Justiniano promoveu a condenação póstuma de três figuras e seus escritos, associados a uma cristologia considerada excessivamente 'nestorianizante' pelos monofisitas: Teodoro de Mopsuéstia (mestre da escola antioquena, já falecido havia mais de um século), certos escritos de Teodoreto de Ciro contra Cirilo, e uma carta atribuída a Ibas de Edessa. Esses três itens ficaram conhecidos coletivamente como os 'Três Capítulos'. A condenação foi extremamente controversa: tratava-se de condenar retroativamente pessoas já falecidas, algumas das quais haviam morrido em plena comunhão com a igreja, sem terem sido julgadas hereges em vida — um precedente jurídico e teológico incômodo.
O papa Vigílio de Roma, pressionado pelo imperador (a ponto de ser fisicamente coagido e mantido sob custódia em Constantinopla durante boa parte da controvérsia), inicialmente resistiu à condenação dos Três Capítulos, temendo que isso enfraquecesse a autoridade de Calcedônia e desse a impressão de capitulação diante dos monofisitas. Após intensa pressão política, Vigílio eventualmente cedeu e aceitou as conclusões do concílio, embora sua reversão de posição tenha gerado sérias tensões com a igreja ocidental, especialmente no norte da Itália, onde alguns bispos entraram em cisma temporário com Roma por décadas, considerando a condenação dos Três Capítulos uma traição a Calcedônia.
O resultado prático de 553
O Segundo Concílio de Constantinopla reafirmou explicitamente a ortodoxia de Calcedônia e de Cirilo de Alexandria simultaneamente, condenou o nestorianismo em suas raízes teológicas antioquenas mais extremadas, e tentou, sem grande sucesso duradouro, reconciliar os monofisitas com a igreja imperial. Do ponto de vista estritamente doutrinário, o concílio não alterou a cristologia calcedônia, mas esclareceu e reforçou sua compatibilidade com a ênfase cirilina na unidade da pessoa de Cristo.
3. Rumo a uma nova controvérsia: o monotelismo
No século seguinte, uma nova tentativa de conciliar calcedônios e monofisitas surgiu sob o imperador Heráclio (610-641), desta vez propondo que, embora Cristo tivesse duas naturezas (concordando com Calcedônia), ele possuía uma só vontade e uma só energia ou operação (monotelismo e monoenergismo, respectivamente) — uma espécie de meio-termo que, esperava-se, poderia ser aceitável tanto para calcedônios quanto para monofisitas, já que a questão da vontade não havia sido explicitamente tratada em Calcedônia. Sérgio, patriarca de Constantinopla, foi o principal arquiteto teológico dessa proposta, e obteve inicialmente considerável apoio, inclusive do papa Honório I de Roma, que endossou informalmente a fórmula em uma carta — endosso que, décadas depois, resultaria na condenação póstuma do próprio Honório como herege, episódio historicamente incômodo para a doutrina posterior da infalibilidade papal proclamada pela Roma do século XIX.
4. Máximo, o Confessor
O principal opositor do monotelismo foi um monge bizantino chamado Máximo, que ficaria conhecido na história como Máximo, o Confessor, por seu sofrimento heroico em defesa da ortodoxia. Máximo argumentava, com notável profundidade filosófica e teológica, que a vontade é uma propriedade da natureza, não da pessoa; portanto, se Cristo possui duas naturezas completas (divina e humana), ele necessariamente possui também duas vontades naturais distintas — uma vontade divina e uma vontade humana —, unidas harmoniosamente na única pessoa do Filho, sem jamais entrarem em conflito ou contradição, pois a vontade humana de Cristo estava perfeitamente submetida à vontade divina. Negar essa dupla vontade, argumentava Máximo, comprometeria a integridade da verdadeira humanidade de Cristo, pois uma humanidade sem vontade própria não seria uma humanidade completa e real, mas apenas um instrumento passivo da divindade — o que, na prática, reintroduziria uma forma sutil de monofisismo.
Máximo pagou caro por sua fidelidade: por recusar-se a aceitar o monotelismo imposto pelo poder imperial, foi julgado, teve a língua cortada e a mão direita amputada (para impedi-lo de continuar escrevendo e pregando contra a heresia oficial), e morreu em exílio em 662, poucos anos antes de sua posição ser vindicada pela igreja.
5. O Terceiro Concílio de Constantinopla (680-681)
Quase duas décadas após a morte de Máximo, o imperador Constantino IV convocou um novo concílio ecumênico em Constantinopla, que se reuniu entre 680 e 681, para resolver definitivamente a controvérsia monotelita. O concílio condenou formalmente o monotelismo e o monoenergismo como heresias, condenou nominalmente seus principais defensores (incluindo, postumamente, o papa Honório I), e declarou solenemente que Cristo possui duas vontades naturais e duas operações naturais, correspondentes às suas duas naturezas, unidas sem divisão, sem mudança, sem separação e sem confusão — a mesma fórmula calcedônia aplicada agora à questão da vontade.
A definição de Constantinopla III (681)
'Pregamos também, segundo o ensinamento dos santos padres, que nele existem duas vontades naturais e duas operações naturais, sem divisão, sem mudança, sem separação, sem confusão... e as duas vontades naturais não são contrárias, longe disso, mas a sua vontade humana segue, sem resistir ou relutar, mas antes sujeitando-se à sua vontade divina e onipotente.'
Essa formulação vindicou postumamente Máximo, o Confessor, cuja defesa corajosa e sofrida da ortodoxia cristológica foi reconhecida pela igreja como fiel testemunho da verdade, mesmo quando praticamente toda a hierarquia eclesiástica e o próprio poder imperial estavam alinhados contra ele — um paralelo notável com a história de Atanásio, mais de três séculos antes.
- Constantinopla II (553) condenou os Três Capítulos, tentando reconciliar calcedônios e monofisitas.
- O monotelismo propunha que Cristo, apesar de ter duas naturezas, possuía apenas uma vontade.
- Máximo, o Confessor, defendeu que Cristo possui duas vontades naturais, unidas harmoniosamente em sua pessoa.
- Máximo sofreu mutilação e exílio por sua fidelidade doutrinária, morrendo antes de ver sua causa vindicada.
- Constantinopla III (680-681) condenou o monotelismo, incluindo postumamente o papa Honório I.
6. Avaliação protestante
A tradição reformada recebe as conclusões cristológicas de ambos os concílios como desenvolvimentos legítimos e biblicamente fundamentados da doutrina de Calcedônia, ainda que reconheça, com honestidade histórica, as motivações políticas complexas que cercaram particularmente o concílio de 553. A questão das duas vontades de Cristo encontra apoio bíblico direto no Getsêmani, onde Jesus ora: 'Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres' (Mt 26:39) — texto que evidencia claramente uma vontade humana genuína (que deseja evitar o sofrimento) submetida voluntariamente à vontade divina do Pai, sem que isso implique qualquer conflito interno na pessoa única de Cristo, mas antes a harmonia perfeita entre suas duas naturezas.
É digno de nota, para os protestantes, o episódio da condenação póstuma do papa Honório I como herege por um concílio ecumênico — um fato histórico incontestável que representa um obstáculo considerável para a doutrina católica romana posterior da infalibilidade papal, definida apenas em 1870 pelo Concílio Vaticano I. Se um papa pôde ser condenado como herege por um concílio ecumênico reconhecido pela própria Roma, a afirmação de infalibilidade papal irrestrita enfrenta uma dificuldade histórica considerável, que apologistas católicos romanos tentam contornar por meio de distinções técnicas entre declarações 'ex cathedra' e cartas pessoais, mas que continua sendo um ponto de debate histórico relevante.
Pai meu, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.
Mateus 26:39
7. Aplicação para hoje
A história de Máximo, o Confessor, nos ensina uma lição preciosa sobre a coragem doutrinária: às vezes, a verdade bíblica é defendida por indivíduos isolados, sem apoio institucional, sofrendo aparente derrota e humilhação, apenas para serem vindicados pela posteridade. Isso não deve nos tornar automaticamente desconfiados de todo consenso eclesiástico — a igreja de Deus, ao longo da história, chegou a muitas conclusões corretas por meio de concílios legítimos —, mas deve nos ensinar que a fidelidade à Escritura, e não a popularidade ou o poder institucional momentâneo, é o critério último de ortodoxia. A vontade humana de Cristo, plenamente submissa à vontade do Pai mesmo em meio à angústia do Getsêmani, permanece também modelo precioso para a nossa própria submissão, muitas vezes penosa, à vontade soberana de Deus em nossa vida.
Palavra Final
Os concílios de Constantinopla II e III completaram, com precisão adicional, o edifício cristológico iniciado em Niceia e consolidado em Calcedônia: Cristo, uma só pessoa, duas naturezas, duas vontades, unidas em harmonia perfeita e sem conflito algum. Que aprendamos, com Máximo, a preferir a fidelidade à verdade bíblica a qualquer conforto ou aprovação institucional passageira. — Daniel Filho
