O Movimento Pentecostal
O Movimento PentecostalEstudo 3 de 7

Daniel Berg e Gunnar Vingren

A chamada, a viagem a Belém do Pará e o nascimento da Assembleia de Deus no Brasil.

15 min de leitura

Nenhum brasileiro que professa a fé pentecostal pode conhecer plenamente suas próprias raízes espirituais sem conhecer a história de dois jovens imigrantes suecos que, movidos por uma palavra profética e por uma obediência radical ao chamado de Deus, atravessaram o Atlântico rumo a uma terra que jamais haviam visitado. Nesta terceira aula da nossa série, vamos conhecer a extraordinária história de Daniel Berg e Gunnar Vingren, e o nascimento daquilo que se tornaria a maior denominação evangélica do Brasil: a Assembleia de Deus.

1. Dois suecos nos Estados Unidos

Daniel Berg e Gunnar Vingren eram jovens imigrantes suecos radicados nos Estados Unidos no início do século XX, época em que milhares de europeus deixavam seus países em busca de novas oportunidades no continente americano. Ambos haviam tido contato com o avivamento pentecostal que se espalhava rapidamente pelos Estados Unidos após os eventos da Rua Azusa, e experimentaram, cada um a seu tempo, o batismo no Espírito Santo, tornando-se homens de intensa vida de oração e busca espiritual.

Gunnar Vingren já atuava como pastor batista, e Daniel Berg trabalhava como operário, mas ambos sentiam um chamado profundo para o ministério, e frequentavam reuniões de oração e comunhão com outros crentes de origem escandinava nos Estados Unidos, muitos dos quais também haviam sido tocados pela experiência pentecostal.

2. A palavra profética sobre o 'Pará'

Segundo o relato tradicionalmente preservado pela história das Assembleias de Deus no Brasil, em uma reunião de oração em Chicago, no ano de 1910, um dos participantes recebeu uma mensagem profética indicando que Daniel Berg e Gunnar Vingren deveriam partir para pregar o evangelho em um lugar chamado 'Pará'. Nenhum dos dois sabia, a princípio, onde ficava esse lugar. Foi apenas ao consultarem um mapa, em uma biblioteca, que descobriram tratar-se de um estado no extremo norte do Brasil, cuja capital era Belém.

Convictos de que aquela era, de fato, a vontade de Deus para suas vidas, Berg e Vingren decidiram obedecer ao chamado, mesmo sem recursos financeiros abundantes, sem conhecer a língua portuguesa, sem contatos estabelecidos naquela região distante e desconhecida. Essa disposição de obedecer a Deus mesmo diante do desconhecido e das dificuldades práticas é um dos aspectos mais marcantes e inspiradores dessa história, e nos remete ao exemplo de Abraão, que 'saiu, sem saber para onde ia' (Hb 11:8), confiando unicamente na fidelidade daquele que o chamava.

Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.

Gênesis 12:1

3. A viagem e a chegada a Belém do Pará

Daniel Berg e Gunnar Vingren embarcaram em uma longa viagem marítima, chegando ao Brasil no ano de 1910, e estabelecendo-se na cidade de Belém do Pará. Os primeiros meses foram de grande dificuldade: precisaram aprender o idioma português, enfrentaram a pobreza, o clima tropical desconhecido para eles, e a resistência natural que muitas vezes recebiam pregadores estrangeiros com uma mensagem religiosa nova e pouco compreendida naquele contexto.

Inicialmente, os dois missionários se congregaram junto a uma igreja batista local, onde passaram a compartilhar sua experiência pentecostal e sua convicção sobre o batismo no Espírito Santo com evidência de línguas estranhas. Assim como ocorrera em diversas igrejas nos Estados Unidos, essa mensagem gerou tanto interesse sincero quanto resistência por parte de alguns membros e lideranças, o que levou, com o tempo, a uma separação entre os que aceitaram a nova experiência e os que preferiram permanecer na tradição eclesiástica anterior.

4. O nascimento da Assembleia de Deus no Brasil

Em 1911, um pequeno grupo de aproximadamente dezoito pessoas, que haviam recebido a experiência do batismo no Espírito Santo sob a pregação de Berg e Vingren, formalizou a criação de uma nova congregação, inicialmente batizada como 'Missão de Fé Apostólica', em clara referência à igreja fundada por William Seymour na Rua Azusa. Anos mais tarde, essa igreja passaria a adotar o nome pelo qual é conhecida até os dias de hoje: Assembleia de Deus, um nome de inspiração bíblica que remete à congregação reunida do povo de Deus.

A partir desse núcleo inicial em Belém do Pará, a mensagem pentecostal começou a se espalhar, primeiramente pela região amazônica, por meio de barcos que percorriam os rios da região levando obreiros e pregadores para pequenas comunidades ribeirinhas, e depois, progressivamente, para outras regiões do país. Esse método de evangelização fluvial, adaptado à geografia amazônica, foi um dos fatores que possibilitou uma expansão surpreendentemente rápida da nova igreja pelo interior do Norte do Brasil.

  1. 11910 — Daniel Berg e Gunnar Vingren chegam a Belém do Pará, obedecendo ao chamado de Deus.
  2. 21911 — Um pequeno grupo de crentes, batizados no Espírito Santo, funda a Missão de Fé Apostólica.
  3. 3Anos seguintes — A congregação adota o nome de Assembleia de Deus, inspirado nas Escrituras.
  4. 4A partir de Belém — A mensagem pentecostal se espalha pelos rios da Amazônia, alcançando comunidades ribeirinhas.
  5. 5Décadas seguintes — A obra avança progressivamente por todo o território nacional, tema de nossa próxima aula.

5. As dificuldades e a fidelidade dos pioneiros

É importante que compreendamos, com honestidade histórica, que os primeiros anos da obra no Brasil foram marcados por privações reais. Berg e Vingren viveram, muitas vezes, em condições de extrema simplicidade, enfrentando doenças tropicais, escassez de recursos e a solidão de estarem longe de sua terra natal e de suas famílias. Gunnar Vingren, inclusive, chegou a registrar em seus diários momentos de profunda provação física e espiritual, mas também de intensa comunhão com Deus em meio às dificuldades.

Essa disposição de sofrer privações por amor ao evangelho nos ensina que a expansão do Reino de Deus quase sempre exige de seus servos um preço a ser pago, um nível de consagração que vai além do conforto e da conveniência pessoal. Paulo descreve algo semelhante ao relatar suas próprias provações no ministério apostólico: 'Em trabalhos, mais abundantemente; em açoites, sem medida; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes' (2Co 11:23). Os pioneiros da Assembleia de Deus no Brasil, embora não apóstolos no sentido bíblico do termo, viveram algo dessa mesma disposição sacrificial.

Fidelidade além do reconhecimento humano

Daniel Berg e Gunnar Vingren jamais poderiam imaginar, ao desembarcarem naquele pequeno porto amazônico, que estavam lançando as sementes daquela que se tornaria a maior denominação evangélica pentecostal do Brasil e uma das maiores do mundo. Isso nos lembra que a fidelidade no chamado de Deus, mesmo em circunstâncias pequenas e aparentemente insignificantes aos olhos humanos, pode gerar frutos que ultrapassam em muito nossa própria compreensão e nossos próprios dias de vida.

6. O legado espiritual de Berg e Vingren

Além da obra evangelística, Berg e Vingren deixaram um legado espiritual marcado pela simplicidade da fé, pela ênfase na oração e na busca pelo batismo no Espírito Santo, pelo amor às Escrituras e pela disposição ao sacrifício missionário. Gunnar Vingren, em particular, deixou registros escritos que se tornaram fontes valiosas para a compreensão histórica dos primeiros anos da obra, revelando um coração pastoral genuíno e uma fé profundamente enraizada na Palavra de Deus.

É fundamental que as gerações atuais de crentes assembleianos conheçam essa história não como mera curiosidade denominacional, mas como um chamado a viver a mesma fé simples, obediente e sacrificial que caracterizou nossos pioneiros. A grandeza numérica que a Assembleia de Deus alcançou ao longo do século XX jamais deve nos fazer esquecer a humildade e o sacrifício que marcaram seu nascimento.

7. Uma história que continua

A história de Daniel Berg e Gunnar Vingren não é apenas um capítulo fechado do passado; ela é o início de uma narrativa que continua até os dias de hoje, em cada igreja local, em cada obreiro que se dispõe a servir com fidelidade, em cada crente que busca sinceramente a experiência do Espírito Santo em sua própria vida. Assim como aqueles dois jovens obedeceram a um chamado que parecia loucura aos olhos humanos, somos convidados, cada um em seu contexto, a obedecer àquilo que Deus tem colocado diante de nós, confiando que Ele é capaz de multiplicar o pequeno começo em uma obra de alcance que jamais poderíamos imaginar.


Continuando a jornada

Na próxima aula, veremos como aquele pequeno início em Belém do Pará se transformou em um dos maiores movimentos evangélicos do mundo, alcançando todo o território brasileiro, e conheceremos as principais características desse crescimento extraordinário, bem como o processo de organização que resultaria, décadas depois, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. — Daniel Filho