Se Topeka foi a centelha, a Rua Azusa foi o incêndio que se espalhou pelo mundo. Nesta segunda aula da nossa série sobre a história do movimento pentecostal, vamos conhecer um dos episódios mais marcantes da história do cristianismo moderno: o avivamento que irrompeu em 1906, em um antigo galpão na Rua Azusa, número 312, em Los Angeles, Califórnia, sob a liderança de um humilde pregador negro chamado William Joseph Seymour. Daquele lugar simples, sem prestígio algum, nasceria um movimento que hoje alcança centenas de milhões de pessoas em praticamente todas as nações da terra.
1. William Seymour: um pregador improvável
William Seymour nasceu na Louisiana, filho de pais que haviam sido escravizados, em um tempo de intensa segregação racial nos Estados Unidos. Apesar das barreiras sociais de sua época, Seymour buscou a Deus com sinceridade e, em determinado momento de sua vida, teve contato com o ensino de Charles Parham sobre o batismo no Espírito Santo, que estudamos em nossa aula anterior. Seymour chegou a frequentar as aulas de Parham em Houston, no Texas — sentado, por causa das leis de segregação racial vigentes, do lado de fora da sala, ouvindo através da porta entreaberta, já que não lhe era permitido sentar-se junto aos demais alunos brancos.
Curiosamente, é digno de nota que, naquele contexto de profunda segregação racial nos Estados Unidos, foi justamente por meio de um pregador negro que Deus haveria de derramar um avivamento que uniria, de forma extraordinária, pessoas de todas as raças, nações e classes sociais em um mesmo altar de oração — algo praticamente impensável para os padrões sociais daquele tempo.
2. A chegada a Los Angeles e o início das reuniões
Em 1906, Seymour foi convidado a pregar em uma pequena igreja de santidade em Los Angeles. Sua mensagem sobre o batismo no Espírito Santo, com evidência de línguas estranhas, não foi bem recebida por todos, e ele acabou impedido de continuar pregando naquele local. Seymour, então, passou a realizar reuniões de oração na casa de uma família que o acolheu, na Rua Bonnie Brae. Ali, em abril de 1906, começaram a ocorrer manifestações extraordinárias: pessoas relatavam ser tomadas por um poder do alto, falando em línguas que não haviam aprendido, e vivendo experiências de profunda quebrantamento e alegria espiritual.
O número de pessoas cresceu tão rapidamente que a pequena casa não comportava mais os interessados, e o grupo passou a se reunir em um antigo galpão, anteriormente usado como estábulo e depois como igreja metodista, localizado na Rua Azusa, número 312. Ali nasceria a Missão da Fé Apostólica (Apostolic Faith Mission), e ali se realizariam, por aproximadamente três anos, reuniões praticamente ininterruptas, dia e noite, que ficariam conhecidas na história como o Avivamento da Rua Azusa.
E, sendo já dia, quando o Espírito Santo desceu sobre eles, todos ficaram admirados, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua.
Atos 2:6 (adaptado do relato de Pentecostes)
3. As características do avivamento
As reuniões na Rua Azusa eram marcadas por uma simplicidade radical e por uma ausência quase completa de formalismo religioso. Não havia liturgia rígida, nem programação fixa; os cultos podiam durar horas, e as pessoas oravam, testemunhavam, cantavam e adoravam livremente, muitas vezes sob intensa emoção. Relatos da época descrevem gemidos, choros, quedas ao chão sob o que os participantes entendiam como o poder do Espírito Santo, e manifestações de línguas estranhas seguidas, muitas vezes, de interpretação.
Um dos aspectos mais notáveis do avivamento foi sua composição social e racial. Em pleno período de segregação nos Estados Unidos, homens e mulheres brancos, negros, hispânicos e asiáticos se reuniam, oravam e adoravam juntos, sem as barreiras que a sociedade impunha do lado de fora daquelas portas. Um observador da época chegou a comentar, de forma notável, que ali 'a linha de cor havia sido lavada pelo sangue' de Cristo. Embora esse ideal de unidade não tenha se sustentado de forma perfeita e duradoura em todos os desdobramentos posteriores do movimento, ele permanece como um testemunho poderoso do que o Espírito Santo é capaz de operar quando irrompe genuinamente sobre um povo humilde e disposto.
- As reuniões ocorriam diariamente, muitas vezes por longas horas, sem programação fixa.
- Havia forte ênfase na oração, no testemunho pessoal e na busca sincera pelo batismo no Espírito Santo.
- O avivamento reunia pessoas de diferentes raças e classes sociais em um mesmo altar, algo extraordinário para a época.
- Missionários saíram da Rua Azusa para diversas partes do mundo, levando a mensagem pentecostal.
- A publicação de um pequeno jornal, o Apostolic Faith, ajudou a divulgar o testemunho do avivamento para além da Califórnia.
4. O alcance mundial do avivamento
O que começou em um pequeno galpão de bairro humilde rapidamente ganhou repercussão nacional e, em seguida, internacional. Pessoas de diversos estados americanos e de outros países viajavam até Los Angeles para testemunhar e participar daquelas reuniões, e muitas delas, ao retornarem para suas regiões de origem ou ao partirem como missionárias, levaram consigo a experiência e a mensagem pentecostal para a Índia, a China, a África, a América Latina e a Europa, em um curtíssimo espaço de tempo — algo notável, se considerarmos as limitações de comunicação e transporte daquela época.
Foi justamente esse fluxo missionário que, em 1910, levaria dois jovens suecos radicados nos Estados Unidos — Daniel Berg e Gunnar Vingren — a sentirem o chamado de Deus para uma terra desconhecida chamada Brasil, história que estudaremos com detalhes em nossa próxima aula. É fascinante perceber como, poucos anos depois de um avivamento aparentemente local e restrito, suas ondas já alcançavam o litoral norte do nosso próprio país.
5. Avaliação histórica e espiritual do avivamento
Como em todo avivamento genuíno, houve também, na Rua Azusa, excessos, exageros pontuais e, posteriormente, divisões dolorosas entre alguns de seus líderes, inclusive entre o próprio Seymour e Charles Parham, que chegou a criticar publicamente alguns aspectos das reuniões. A história do avivamento pentecostal, como a de todo movimento humano tocado por Deus, não deve ser romantizada a ponto de ignorarmos suas fragilidades, nem deve ser desprezada por causa delas. Devemos avaliar tudo à luz das Escrituras, retendo o que é bom (1Ts 5:21).
O que não se pode negar, contudo, é o impacto duradouro daquele avivamento sobre a configuração do cristianismo mundial no século XX e XXI. Praticamente todas as grandes denominações pentecostais e boa parte do movimento carismático contemporâneo remontam, direta ou indiretamente, àquele pequeno galpão na Rua Azusa. Foi ali que se consolidou, de forma pública e visível ao mundo, a convicção de que o Espírito Santo continua a agir hoje como agiu no dia de Pentecostes, capacitando homens e mulheres comuns para o testemunho e o serviço a Deus.
Humildade como marca do avivamento
É notável que Deus tenha escolhido, para dar início a um dos maiores movimentos espirituais da história do cristianismo, não uma catedral imponente, nem um pregador de renome, mas um pequeno galpão de bairro pobre e um pregador humilde, filho de ex-escravizados. Isso nos ensina que os critérios de Deus para usar pessoas e lugares não são os critérios do mundo, e que Ele se agrada em usar o que é humilde para envergonhar os poderosos (1Co 1:27).
6. Lições para a igreja de hoje
Ao estudarmos o avivamento da Rua Azusa, somos desafiados a examinar nosso próprio coração diante de Deus. Estamos genuinamente famintos pela presença do Espírito Santo, como aqueles crentes estavam? Estamos dispostos a nos humilhar, a orar com perseverança e a buscar a Deus mesmo quando isso não traz reconhecimento social? Estamos abertos à unidade que o Espírito Santo produz entre pessoas de diferentes origens, superando preconceitos e barreiras que o mundo insiste em erguer entre nós?
Como igreja pentecostal, herdeira direta ou indireta desse avivamento, temos a responsabilidade de manter viva não apenas a experiência espiritual, mas também a fidelidade bíblica e o testemunho de amor e unidade que caracterizaram aqueles primeiros dias. Que o Senhor continue derramando seu Espírito sobre sua igreja em cada geração, e que saibamos recebê-lo com humildade, discernimento e obediência à sua Palavra.
Rumo ao Brasil
Na próxima aula, veremos como esse mesmo Espírito que se manifestou na Rua Azusa haveria de tocar o coração de dois jovens imigrantes suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, conduzindo-os a uma jornada de fé até as terras do Pará, no norte do Brasil, onde nasceria aquilo que hoje conhecemos como Assembleia de Deus. — Daniel Filho
