Encerramos nossa série 'O Movimento Pentecostal — História das Assembleias de Deus' voltando nosso olhar para mais perto de casa: a história da obra pentecostal em Santos, reconhecida pelos registros da tradição assembleiana como a igreja pioneira do movimento no estado de São Paulo. Assim como Belém do Pará recebeu, por meio do porto, os primeiros missionários pentecostais vindos dos Estados Unidos, também o litoral paulista, e especialmente a cidade de Santos, com seu importante porto marítimo, tornou-se porta de entrada para a chegada e o estabelecimento do pentecostalismo nesta região do Brasil.
1. O porto de Santos como porta de entrada
Ao longo da primeira metade do século XX, o porto de Santos era um dos mais movimentados do país, recebendo constantemente pessoas, mercadorias e ideias vindas de diferentes partes do Brasil e do mundo. Não é de surpreender, portanto, que, segundo os registros preservados pela história da igreja, tenha sido justamente por meio dessa cidade portuária que o pentecostalismo, já estabelecido havia algumas décadas no Norte do país, encontrou caminho para se estabelecer no litoral paulista, chegando por meio de obreiros e crentes que se deslocavam entre as regiões do país, muitos deles originários do Norte e do Nordeste, levando consigo a fé pentecostal que haviam recebido em suas terras de origem.
É importante reconhecermos, com a devida honestidade histórica, que documentos detalhados e precisos sobre os primeiríssimos passos dessa obra nem sempre estão amplamente disponibilizados ou consolidados em uma única fonte pública. Por isso, ao relatarmos esses primeiros passos, preferimos utilizar linguagem cuidadosa — 'por volta de', 'segundo os registros da igreja', 'de acordo com a tradição local' — a arriscar afirmações precisas que a pesquisa histórica ainda não confirmou com total segurança. O que podemos afirmar com confiança é que, por volta das primeiras décadas do século XX, o pentecostalismo chegou à Baixada Santista trazido por obreiros fiéis, dispostos a plantar igrejas em uma região ainda pouco alcançada por essa mensagem.
Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?
Romanos 10:14
2. O papel dos obreiros vindos do Norte
Um dos traços mais bonitos da expansão pentecostal brasileira, como vimos em aula anterior desta série, é justamente o protagonismo de obreiros simples, muitas vezes leigos, que deixavam suas regiões de origem — especialmente o Norte e o Nordeste do país — para se estabelecer em novas cidades, levando consigo, além de suas famílias e seus pertences, a fé pentecostal que haviam recebido. Foi por meio desse mesmo processo de migração interna que a mensagem pentecostal chegou também a Santos e à Baixada Santista, encontrando aqui um terreno fértil entre trabalhadores portuários, pescadores, operários e famílias simples que buscavam, na fé em Cristo, esperança e sentido para sua vida.
Segundo a memória preservada pela igreja local, esses primeiros obreiros enfrentaram desafios semelhantes aos vividos pelos pioneiros de Belém: escassez de recursos, resistência inicial da sociedade e de outras igrejas já estabelecidas, e a necessidade de perseverança para consolidar pequenas congregações que, com o tempo, cresceriam e se multiplicariam por toda a região da Baixada Santista, alcançando não apenas Santos, mas também as cidades vizinhas do litoral paulista.
3. O crescimento da obra na Baixada Santista
Com o passar das décadas, a igreja pioneira de Santos tornou-se, segundo os registros da própria denominação, um importante polo de irradiação do pentecostalismo para toda a região da Baixada Santista, dando origem a diversas outras congregações nas cidades vizinhas. Esse crescimento seguiu o mesmo padrão observado em outras partes do Brasil: multiplicação orgânica de igrejas, protagonismo de obreiros locais formados dentro da própria comunhão eclesiástica, e forte identificação com as famílias trabalhadoras da região portuária e das comunidades pesqueiras do litoral.
- O porto de Santos favoreceu a chegada e a circulação de obreiros e da mensagem pentecostal na região.
- Obreiros vindos do Norte e do Nordeste tiveram papel fundamental no estabelecimento da obra local.
- A igreja pioneira de Santos tornou-se, ao longo do tempo, polo de irradiação para toda a Baixada Santista.
- O crescimento se deu de forma orgânica, com forte identificação com famílias trabalhadoras da região.
- A obra em Santos se tornou, com o tempo, referência histórica para o pentecostalismo no estado de São Paulo.
4. A formação de obreiros e o C.F.O.
Assim como em todo o Brasil, a Assembleia de Deus em Santos compreendeu, ao longo de sua história, a importância da formação teológica sólida para seus obreiros, pastores e líderes de ministérios internos. Cursos de formação bíblica e teológica, entre os quais se destaca o tradicional Curso de Formação de Obreiros (C.F.O.), amplamente adotado nas Assembleias de Deus de todo o país, foram implantados também na obra santista, com o objetivo de capacitar biblicamente novos obreiros para o ministério pastoral, o diaconato, o ensino da Escola Bíblica Dominical e os diversos ministérios da igreja local.
Essa preocupação com a formação teológica reflete exatamente aquilo que discutimos em nossa aula anterior sobre os desafios contemporâneos do pentecostalismo: a convicção de que a experiência espiritual genuína deve caminhar lado a lado com o conhecimento bíblico sólido, e que obreiros bem formados são fundamentais para a saúde doutrinária e pastoral de qualquer igreja local, especialmente diante do crescimento numérico e da complexidade cada vez maior dos desafios pastorais na sociedade contemporânea.
5. O legado atual da obra pioneira
Hoje, a Assembleia de Deus em Santos carrega consigo a honra e a responsabilidade de ser reconhecida como igreja pioneira do movimento pentecostal em nosso estado. Esse legado não deve ser motivo de orgulho institucional vazio, mas de gratidão profunda a Deus e de renovado compromisso com a fidelidade bíblica e o zelo missionário que caracterizaram aqueles primeiros obreiros que, com poucos recursos e muita fé, lançaram as sementes daquilo que hoje é uma vasta obra espalhada por toda a Baixada Santista.
Ser igreja pioneira implica também uma vocação de referência e serviço às demais congregações da região: continuar formando obreiros com solidez bíblica, continuar plantando novas igrejas, continuar servindo à comunidade santista com o mesmo amor e humildade que caracterizaram nossos antepassados na fé, e continuar preservando, com cuidado histórico e espiritual, a memória daquilo que Deus operou nesta cidade portuária ao longo de mais de um século.
Ajude-nos a preservar essa história
Muitos detalhes preciosos da história da Assembleia de Deus em Santos — nomes de pioneiros, datas exatas, fotografias antigas, relatos de família — encontram-se hoje apenas na memória de irmãos mais antigos e em registros pessoais dispersos. Convidamos você, leitor, se possuir registros, documentos, fotografias antigas ou memórias de família ligadas à história desta igreja, a entrar em contato conosco e compartilhar esse material. Juntos, podemos preservar com maior precisão e riqueza de detalhes a história desta obra pioneira, para que as futuras gerações conheçam e valorizem o legado espiritual que receberam.
6. Concluindo nossa jornada histórica
Ao longo desta série, percorremos um caminho que começou nas reuniões de santidade do século XVIII e XIX, passou pelo avivamento de Topeka e pela Rua Azusa, atravessou o Atlântico com Daniel Berg e Gunnar Vingren até Belém do Pará, espalhou-se por todo o território brasileiro, consolidou-se doutrinariamente por meio da Declaração de Fé, enfrentou os desafios contemporâneos da teologia da prosperidade e da superficialidade doutrinária, e chegou, por fim, à história local da nossa própria igreja em Santos. Essa é uma história de fidelidade de Deus e de obediência humana, imperfeita, mas sincera, ao chamado do Espírito Santo.
Que conhecer essa história não seja mero exercício de curiosidade acadêmica, mas um chamado renovado à mesma fé simples, obediente e cheia do Espírito que moveu nossos antepassados, e um convite à responsabilidade de transmitirmos, com fidelidade bíblica e zelo pastoral, essa preciosa herança espiritual às gerações que ainda hão de vir.
Palavra final
Do galpão humilde da Rua Azusa ao litoral de Santos, a história do movimento pentecostal é, antes de tudo, a história da fidelidade de Deus para com seu povo, através de vasos simples e disponíveis. Que continuemos, com humildade e solidez bíblica, a escrever novos capítulos dessa história em nossa geração. — Daniel Filho
