Poucos temas escatológicos despertam tanto interesse — e, infelizmente, tanta especulação irresponsável — quanto o arrebatamento da Igreja e a grande tribulação. Filmes, best-sellers e pregações sensacionalistas já fizeram muito estrago nesse campo, associando o dispensacionalismo a previsões apressadas e a um tipo de escatologia baseada mais no medo do que na esperança bíblica. Neste estudo, pretendemos examinar com serenidade o que as Escrituras realmente ensinam sobre esses eventos, apresentando com honestidade as diferentes posições evangélicas sobre a cronologia do arrebatamento e o significado da semana setenta de Daniel.
1. O que é o arrebatamento?
O termo "arrebatamento" (do latim *raptus*, traduzindo o grego *harpazo*, "arrebatar", "tomar à força", "levar subitamente") descreve o evento futuro em que a Igreja será removida da terra e levada ao encontro do Senhor no ar. O texto clássico sobre esse evento é 1 Tessalonicenses 4:16-17: "Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor".
Paulo escreve essa passagem para consolar os cristãos de Tessalônica, que se angustiavam com a morte de entes queridos na fé, temendo que estes perdessem a participação na vinda gloriosa de Cristo. Sua resposta é clara: os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro, e depois os vivos serão transformados e arrebatados junto com eles. Paulo trata o mesmo tema em 1 Coríntios 15:51-52, chamando-o de "mistério": "Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados". Esse é o alicerce bíblico da doutrina do arrebatamento, sobre a qual praticamente todo cristão evangélico concorda em algum grau; o que gera divergência é o momento exato desse evento em relação à grande tribulação.
2. A semana setenta de Daniel
Fundamental para toda a discussão sobre a tribulação futura é a profecia das "setenta semanas" de Daniel 9:24-27, dada ao profeta pelo anjo Gabriel. O texto fala de "setenta semanas" (literalmente, setenta "sete", entendidas por muitos intérpretes como setenta períodos de sete anos, totalizando 490 anos) determinadas "sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade" — ou seja, especificamente sobre Israel e Jerusalém — para consumar a transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniquidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia, e ungir o Santo dos Santos.
A interpretação dispensacionalista clássica, seguindo estudiosos como Sir Robert Anderson, divide essas setenta semanas em três blocos: sete semanas (49 anos) e sessenta e duas semanas (434 anos), totalizando 483 anos, desde a ordem para reconstruir Jerusalém até o "Messias, o Príncipe" (Dn 9:25) — período que muitos calculam corresponder ao tempo entre o decreto de Artaxerxes (cerca de 445 a.C.) e a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Depois desse período, o Messias seria "cortado", morrendo sem nada obter para si mesmo (Dn 9:26), referindo-se à crucificação de Cristo, seguida pela destruição de Jerusalém e do templo, ocorrida em 70 d.C. pelas mãos romanas.
A grande questão dispensacionalista é: onde está a septuagésima semana, a última das setenta? A resposta clássica é que existe um hiato — um intervalo indeterminado de tempo — entre a sexagésima nona e a septuagésima semana, período que corresponde exatamente à atual dispensação da Graça, a era da Igreja, não revelada nem contada nesse relógio profético específico dado a Daniel para o povo de Israel. A septuagésima semana, de sete anos, seria então cumprida no futuro, após o arrebatamento da Igreja, correspondendo ao período que o Novo Testamento chama de "grande tribulação".
E ele fará firmar a aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares.
Daniel 9:27
3. A grande tribulação
Jesus, em seu discurso profético no Monte das Oliveiras, descreve um período futuro de sofrimento sem precedentes: "Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver" (Mt 24:21). O livro do Apocalipse dedica a maior parte de seus capítulos centrais (6 a 19) à descrição detalhada desse período, com os selos, as trombetas e as taças de juízo derramadas sobre a terra, culminando na batalha do Armagedom e na segunda vinda visível e gloriosa de Cristo (Ap 19:11-16), quando Ele retornará para destruir o Anticristo, o falso profeta, julgar as nações e estabelecer seu reino milenar.
Para o dispensacionalista, esse período de sete anos tem um propósito duplo, revelado no próprio texto de Daniel: julgar as nações incrédulas e, especialmente, purificar e restaurar Israel, preparando a nação para reconhecer finalmente Jesus como Messias em sua segunda vinda (Zc 12:10; Rm 11:26). É por isso que muitos dispensacionalistas preferem falar da tribulação como "a septuagésima semana de Daniel" ou "o tempo da angústia de Jacó" (Jr 30:7), reforçando que seu foco escatológico principal é Israel, não a Igreja.
4. As principais posições sobre o momento do arrebatamento
É aqui que encontramos a maior diversidade de opinião entre cristãos que, igualmente, creem na inspiração das Escrituras e no retorno pessoal de Cristo. Vamos apresentar as três principais posições com honestidade.
Pré-tribulacionismo
Essa é a posição mais comum entre dispensacionalistas clássicos, incluindo a maioria das denominações pentecostais brasileiras. Segundo ela, o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes do início da septuagésima semana de Daniel, ou seja, a Igreja será removida da terra antes de qualquer parte da grande tribulação. Os principais argumentos incluem: a promessa de que a Igreja será "guardada da hora da tentação, que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam sobre a terra" (Ap 3:10); o fato de a Igreja não ser mencionada em Apocalipse entre os capítulos 4 e 18, período que descreve a tribulação; e o caráter de esperança iminente e consoladora do arrebatamento (1Ts 4:18; Tt 2:13), que perderia sentido se a Igreja precisasse primeiro atravessar julgamentos apocalípticos identificáveis por sinais específicos.
Pós-tribulacionismo
Segundo essa visão, defendida por muitos teólogos, incluindo parte da tradição histórico-premilenista (distinta do dispensacionalismo), o arrebatamento da Igreja ocorrerá ao final da grande tribulação, coincidindo, na prática, com a segunda vinda visível de Cristo. Os defensores dessa posição argumentam que a Igreja sempre passou por tribulação ao longo da história (Jo 16:33; At 14:22) e que não há razão clara para presumir isenção especial nesse período final; além disso, apontam que a ressurreição dos crentes em 1 Coríntios 15:52 ocorre "na última trombeta", que associam à sétima trombeta de Apocalipse 11:15, situada próxima ao fim da tribulação.
Mesotribulacionismo (ou pré-ira)
Posições intermediárias sustentam que o arrebatamento ocorrerá em algum ponto no meio da septuagésima semana — por exemplo, no seu ponto médio (Dn 9:27), quando o Anticristo profana o templo (o "mesotribulacionismo" propriamente dito), ou pouco antes do derramamento mais intenso da ira de Deus, já perto do fim do período (a posição "pré-ira", que distingue entre a perseguição geral movida pelo Anticristo, que a Igreja poderia enfrentar, e a ira específica de Deus derramada nas taças finais, da qual a Igreja seria poupada, com base em 1Ts 5:9, "Deus não nos destinou para a ira").
Humildade diante do texto profético
É preciso reconhecer, com honestidade pastoral, que a profecia bíblica, por sua própria natureza simbólica e por tratar de eventos ainda futuros, admite legitimamente certo grau de incerteza quanto aos detalhes cronológicos precisos, mesmo entre estudiosos igualmente comprometidos com a autoridade das Escrituras. Como pentecostal e dispensacionalista, mantenho a convicção pessoal na posição pré-tribulacionista, por considerá-la a que melhor harmoniza o conjunto dos textos bíblicos relevantes; mas reconheço que irmãos sinceros, estudiosos e piedosos discordam quanto a esse ponto específico, sem que isso comprometa a essência do evangelho ou a certeza gloriosa do retorno pessoal e visível de Cristo.
5. O que todos concordam: a certeza da volta de Cristo
Independentemente da posição específica sobre a cronologia, há um núcleo de verdade escatológica sobre o qual praticamente todos os cristãos evangélicos concordam, e que deveria ser a ênfase pastoral principal de qualquer pregação sobre esses temas: Jesus Cristo voltará pessoal, visível e gloriosamente (At 1:11); os mortos em Cristo ressuscitarão e os vivos serão transformados (1Co 15:51-53); haverá um julgamento final e a consumação plena do reino de Deus; e os crentes viverão eternamente na presença do Senhor (1Ts 4:17). Essa esperança deve nos motivar não à especulação ansiosa sobre datas e detalhes, algo que a própria Escritura desaconselha (Mt 24:36; At 1:7), mas à santidade prática, à vigilância espiritual e ao trabalho missionário urgente enquanto ainda há tempo (2Pe 3:11-14; Mt 24:14).
- A esperança escatológica deve produzir santidade, não ansiedade (1Jo 3:2-3).
- A incerteza quanto à data exata do retorno de Cristo deve nos manter vigilantes, não complacentes (Mt 24:42-44).
- As divergências entre posições pré, meso e pós-tribulacionistas são discussões honestas dentro do campo evangélico, e não devem ser motivo de divisão ou de julgamento mútuo entre irmãos.
- A urgência da mensagem do evangelho, e não o fascínio por cronogramas proféticos, deveria ser a principal motivação prática dessa doutrina.
No estudo final desta série, examinaremos o reino milenar de Cristo, os juízos finais descritos nas Escrituras, e proporemos uma avaliação equilibrada e caridosa de todo o sistema dispensacionalista, reconhecendo seus pontos fortes e também os espaços legítimos de discordância entre irmãos que amam igualmente as Escrituras e o Senhor Jesus. — Daniel Filho
