Uma das perguntas mais comuns que ouvimos de novos crentes — e também de céticos que buscam desacreditar a fé cristã — é: quem decidiu quais livros fariam parte da Bíblia? Não foi um concílio, séculos depois de Cristo, que arbitrariamente escolheu 66 livros entre centenas de outros, descartando o resto por motivos políticos? Essa é uma narrativa popularizada por obras de ficção e por certos grupos céticos, mas ela não corresponde à realidade histórica. Nesta segunda aula da série 'Conheça Sua Bíblia', vamos entender como se deu, de fato, o processo de formação do cânon das Escrituras — tanto do Antigo quanto do Novo Testamento — e por que podemos confiar que os 66 livros que temos em nossas Bíblias são exatamente os livros que Deus quis nos dar.
1. O que significa a palavra 'cânon'
A palavra 'cânon' vem do grego kanon, que significa 'regra' ou 'vara de medir'. Quando falamos do cânon das Escrituras, referimo-nos à lista de livros reconhecidos pela igreja como inspirados por Deus e, portanto, com autoridade normativa sobre a fé e a vida do povo de Deus. É importante compreender uma distinção fundamental: a igreja não criou o cânon, como se ela tivesse o poder de tornar um livro inspirado por decreto; a igreja reconheceu o cânon, isto é, discerniu e recebeu aqueles livros que já eram, desde sua origem, inspirados por Deus.
Essa distinção é crucial. Um livro não se torna Palavra de Deus porque um concílio o declarou assim; ele já era Palavra de Deus desde o momento em que foi escrito sob a inspiração do Espírito Santo, e a igreja, ao longo do tempo, apenas reconheceu essa realidade e a formalizou. É semelhante a alguém que descobre uma pepita de ouro: a pessoa não transforma o metal em ouro; ela apenas reconhece o que já era ouro por natureza.
2. A formação do cânon do Antigo Testamento
O Antigo Testamento foi formado ao longo de mais de mil anos, desde Moisés (por volta do século XV a.C.) até os últimos profetas, como Malaquias (século V a.C.). O povo judeu organizava suas Escrituras em três grandes divisões: a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim), formando o acrônimo Tanakh. Jesus mesmo se refere a essa tríplice divisão quando diz que estava escrito a seu respeito 'na Lei de Moisés, nos Profetas, e nos Salmos' (Lc 24:44).
Diferentemente do que muitos pensam, os judeus não decidiram arbitrariamente quais livros incluir; havia critérios reconhecidos: a origem profética do livro (escrito por alguém reconhecido como porta-voz de Deus), a concordância com a revelação anterior, e o reconhecimento contínuo pela comunidade de fé como Palavra autorizada. Historiadores como Flávio Josefo, no primeiro século d.C., já testemunham que os judeus reconheciam um conjunto fechado de 22 (ou 24, dependendo da contagem) livros sagrados, correspondentes exatamente aos 39 livros do nosso Antigo Testamento (a diferença numérica se deve apenas à forma de agrupar os livros, e não a conteúdo adicional).
3. Os livros apócrifos do Antigo Testamento
Entre o Antigo e o Novo Testamento, no chamado 'período interbíblico', surgiram diversos escritos judaicos, como Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirach), Baruque e os livros dos Macabeus. Esses livros, conhecidos como apócrifos (ou deuterocanônicos, na terminologia católica romana), contêm informações históricas úteis e ensinamentos morais respeitáveis, mas nunca foram reconhecidos pelos judeus palestinos como parte das Escrituras inspiradas, nunca são citados como Escritura por Jesus ou pelos apóstolos no Novo Testamento, e contêm erros históricos e doutrinários incompatíveis com a inerrância bíblica.
Foi somente no Concílio de Trento, em 1546 — já em resposta polêmica à Reforma Protestante —, que a Igreja Católica Romana declarou dogmaticamente esses livros como canônicos, em parte porque alguns deles davam apoio a doutrinas como a oração pelos mortos (2 Macabeus 12:45-46). Os reformadores, seguindo a tradição judaica e da igreja primitiva (como Jerônimo, tradutor da Vulgata, que também os considerava não-canônicos), rejeitaram essa inclusão tardia, mantendo o cânon do Antigo Testamento fiel aos 39 livros reconhecidos pelo povo judeu desde a antiguidade.
Por que os apócrifos não são Escritura
Os apócrifos nunca foram incluídos no cânon hebraico usado por Jesus e pelos apóstolos; nenhum autor do Novo Testamento os cita como Escritura autoritativa; eles contêm afirmações teológicas e históricas problemáticas; e os próprios autores de alguns desses livros reconhecem não possuir autoridade profética equivalente às Escrituras canônicas. Isso não significa que sejam sem valor histórico, mas significa que não devem ser tomados como regra de fé.
4. A formação do cânon do Novo Testamento
O Novo Testamento foi escrito num período muito mais curto, entre aproximadamente 45 e 95 d.C., por apóstolos ou por companheiros próximos de apóstolos, testemunhas diretas ou indiretas do ministério, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Desde muito cedo, as igrejas reconheciam certos escritos como possuindo autoridade equivalente à do Antigo Testamento. Pedro, por exemplo, já se refere às cartas de Paulo como 'Escrituras' (2Pe 3:15-16), e Paulo cita o Evangelho de Lucas ao lado de Deuteronômio, chamando ambos de 'Escritura' (1Tm 5:18).
Os critérios utilizados pela igreja primitiva para reconhecer a canonicidade de um livro neotestamentário eram principalmente três: origem apostólica (o livro foi escrito por um apóstolo ou por alguém intimamente ligado a um apóstolo, como Marcos com Pedro, ou Lucas com Paulo); ortodoxia (o conteúdo estava de acordo com a regra de fé transmitida pelos apóstolos, sem contradizer o restante das Escrituras); e uso universal e contínuo pela igreja (o livro era lido, copiado, citado e utilizado amplamente nas igrejas, em diferentes regiões geográficas, desde tempos muito antigos).
- Origem apostólica: escrito por um apóstolo ou por associado direto de um apóstolo.
- Ortodoxia doutrinária: coerência com o ensino apostólico já recebido pela igreja.
- Uso litúrgico e universal: reconhecimento amplo e contínuo pelas igrejas em diversas regiões.
- Testemunho do próprio Espírito Santo, que atesta internamente ao coração do crente a voz de seu Pastor (Jo 10:27).
5. Os concílios e o reconhecimento formal do cânon
Já no final do segundo século, o chamado Cânon de Muratori (por volta de 170 d.C.) lista a maior parte dos livros do Novo Testamento como reconhecidos e utilizados pelas igrejas. Ao longo dos séculos III e IV, praticamente todos os 27 livros já eram amplamente aceitos, com pequenas discussões remanescentes sobre alguns poucos escritos (como Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse, chamados de 'antilegômenos', ou seja, 'contestados' por alguns, mas não rejeitados pela maioria).
Foi Atanásio de Alexandria quem, em sua Carta Festal de 367 d.C., listou pela primeira vez, de forma explícita e completa, exatamente os 27 livros que hoje reconhecemos como o Novo Testamento — nem mais, nem menos. Concílios posteriores, como os de Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 d.C.), apenas ratificaram formalmente aquilo que já era, na prática, a convicção consensual da igreja havia gerações. Não houve, portanto, uma imposição arbitrária e tardia, mas o reconhecimento formal de um consenso que já existia organicamente há séculos entre as igrejas espalhadas pelo império romano.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem.
João 10:27
6. E os evangelhos 'perdidos'? O caso dos escritos gnósticos
É comum ouvirmos falar de evangelhos 'alternativos', como o Evangelho de Tomé, de Judas ou de Filipe, supostamente 'suprimidos' por uma igreja institucional interessada em poder. A realidade histórica, porém, é bem diferente: esses escritos são, em sua maioria, produções gnósticas do segundo e terceiro séculos, muito posteriores aos eventos que narram (ao contrário dos evangelhos canônicos, escritos no primeiro século, por testemunhas oculares ou por companheiros diretos delas), contêm doutrinas claramente incompatíveis com o ensino apostólico (como a negação da encarnação real de Cristo, ou ideias dualistas sobre matéria e espírito), e nunca foram amplamente aceitos ou utilizados nas igrejas cristãs históricas, sendo conhecidos e rejeitados já pelos primeiros defensores da fé, como Irineu de Lyon, no século II.
Longe de serem 'vozes silenciadas' de um cristianismo primitivo diverso, esses textos representam desvios doutrinários posteriores, corretamente identificados e rejeitados pela igreja fiel ao testemunho apostólico original. A rejeição desses escritos não foi um ato de censura arbitrária, mas de fidelidade discernida à verdade já recebida dos apóstolos.
7. Confiança na providência de Deus sobre o cânon
Para o cristão reformado, a formação do cânon não é apenas um processo histórico interessante, mas um testemunho da providência soberana de Deus, que preservou sua Palavra ao longo dos séculos, guiando sua igreja a reconhecer corretamente os livros que Ele mesmo inspirou. Assim como Deus preservou seu povo através da história, Ele também preservou sua Palavra, cumprindo a promessa de que 'a palavra do nosso Deus subsiste eternamente' (Is 40:8).
Isso nos dá enorme segurança ao abrirmos nossas Bíblias: não estamos lendo uma coleção arbitrária de textos religiosos escolhidos por interesses políticos de séculos passados, mas o registro fielmente preservado e reconhecido daquilo que Deus, em sua graça, quis revelar à humanidade por meio de seus servos inspirados, ao longo de mais de mil e quinhentos anos de história redentiva.
8. Aplicação prática: gratidão e confiança
Conhecer essa história deveria produzir em nós, antes de tudo, gratidão profunda a Deus por ter preservado sua Palavra através dos séculos, apesar de perseguições, guerras, incêndios de bibliotecas e tentativas de corrupção. Deveria também nos dar confiança sólida diante de argumentos céticos que tentam minar a credibilidade do cânon bíblico, muitas vezes baseados em desinformação histórica ou em teorias de conspiração sem fundamento acadêmico sério.
Que possamos, ao segurar nossa Bíblia, lembrar que ali está reunida, por obra da providência de Deus, a revelação completa e suficiente que Ele quis dar à sua igreja — nem um livro a mais, nem um a menos. Na próxima aula desta série, faremos um panorama do Antigo Testamento, para entender como esses 39 livros se organizam e contam a grande história da redenção que aponta para Cristo. — Daniel Filho
