No dia 19 de novembro de 1910, dois jovens missionários suecos desembarcavam no porto de Belém do Pará, sem dinheiro, sem conhecer a língua portuguesa, sem apoio de nenhuma grande denominação e sem qualquer estrutura eclesiástica que os aguardasse. Chamavam-se Daniel Berg e Gunnar Vingren. Poucos naquele cais poderiam imaginar que aquele gesto simples — a chegada de dois estrangeiros pobres — seria o início de um dos maiores movimentos religiosos que o Brasil já conheceu: a Assembleia de Deus, hoje a maior denominação evangélica do país e uma das maiores do mundo.
Neste artigo, vamos percorrer a trajetória extraordinária desses dois homens, entender o contexto espiritual que os formou, a notável profecia que os trouxe ao Pará, as dificuldades enfrentadas nos primeiros anos, a expansão vertiginosa da obra por todo o Brasil, e refletir sobre o legado — e os desafios — que herdamos deles.
O contexto sueco e o avivamento pentecostal
Daniel Berg nasceu em 1884, na Suécia, e Gunnar Vingren nasceu em 1879, também sueco, mas criado e formado teologicamente já como pregador batista nos Estados Unidos, para onde imigrou ainda jovem. Ambos foram tocados pelo avivamento pentecostal que varria o mundo no início do século XX, especialmente após o célebre Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles (1906), que difundiu a experiência do batismo com o Espírito Santo, acompanhado do falar em línguas, conforme relatado em Atos 2.
Berg emigrou para os Estados Unidos em busca de trabalho e ali, na cidade de South Bend, Indiana, entrou em contato com grupos pentecostais recém-formados. Foi também nos Estados Unidos que conheceu Gunnar Vingren, que já pastoreava uma igreja batista em Chicago mas buscava intensamente uma experiência mais profunda com Deus. Os dois se tornaram amigos íntimos e companheiros de oração, buscando juntos o batismo no Espírito Santo, que ambos viriam a experimentar.
A profecia sobre o Pará
O episódio mais marcante e determinante para a formação da futura Assembleia de Deus no Brasil ocorreu numa reunião de oração em Chicago, no ano de 1910. Durante um culto, um homem chamado Adolf Uldin, sob forte unção, proferiu uma mensagem profética dirigida a Gunnar Vingren, dizendo que Deus o enviaria a pregar o evangelho em uma terra distante, e que esse lugar se chamava 'Pará'.
Nenhum dos presentes sabia exatamente onde ficava esse lugar. Vingren e Berg foram a uma biblioteca pública consultar um atlas e, para surpresa de todos, encontraram: Pará era um estado do norte do Brasil, cuja capital era Belém. A confirmação profética foi tão forte que ambos entenderam claramente que aquele era o chamado de Deus para suas vidas. Renunciaram aos seus ministérios estabelecidos nos Estados Unidos, buscaram recursos entre os irmãos da fé, e embarcaram rumo ao desconhecido, confiando unicamente na provisão divina.
E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.
Marcos 16:15
A chegada a Belém em 1910
Ao chegarem a Belém, Berg e Vingren não conheciam ninguém, não falavam português e possuíam recursos financeiros extremamente escassos. Foram inicialmente acolhidos pela Igreja Batista local, cujo pastor, Justus Nelson, hospedou-os fraternalmente. Ali começaram a aprender a língua portuguesa e a estudar as Escrituras com os batistas, ao mesmo tempo em que testemunhavam discretamente sobre a experiência pentecostal que haviam vivido.
O testemunho sobre o batismo no Espírito Santo não foi bem recebido por toda a liderança batista da época, o que gerou tensões teológicas compreensíveis, já que se tratava de uma doutrina ainda desconhecida naquele meio. Isso levou, com o tempo, a uma separação amigável, e um pequeno grupo de dezoito membros que aceitaram a pregação pentecostal de Berg e Vingren se reuniu para formar uma nova congregação, em 18 de junho de 1911, batizada inicialmente como 'Missão da Fé Apostólica', nome posteriormente alterado para Assembleia de Deus, em 1918.
Dificuldades e perseguições dos primeiros anos
Os primeiros anos foram de extrema dificuldade material e espiritual. Berg trabalhava como fundidor numa fábrica para sustentar a si mesmo e à obra, enquanto Vingren se dedicava mais diretamente à pregação e ao pastoreio. A pequena comunidade sofria preconceito da sociedade local, que via com desconfiança as manifestações espirituais pentecostais, muitas vezes ridicularizadas como fanatismo ou histeria religiosa.
- Falta de recursos financeiros para sustento próprio e da obra missionária.
- Barreira do idioma nos primeiros meses de pregação.
- Rejeição por parte de setores do protestantismo histórico da época.
- Perseguição da imprensa local, que publicava críticas e caricaturas do movimento.
- Doenças tropicais desconhecidas para os missionários suecos, incluindo febres que quase vitimaram Vingren.
Apesar de tudo isso, o crescimento foi notável. A mensagem pentecostal, com ênfase na experiência pessoal e transformadora do Espírito Santo, tocava profundamente o coração de pessoas simples — pescadores, trabalhadores humildes, mulheres sem instrução formal —, que encontravam ali um evangelho vivo, poderoso e acessível, muito diferente do formalismo religioso predominante. Como diz a Escritura: "Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos" (Zacarias 4:6).
Um detalhe providencial
Antes de Berg e Vingren desembarcarem, um pregador sueco batista, e mais tarde outros missionários suecos independentes, já haviam preparado terreno espiritual na região amazônica. Deus, em sua soberania, foi tecendo circunstâncias históricas que convergiram exatamente no momento e lugar certos para o nascimento do movimento pentecostal brasileiro.
A expansão pelo Brasil
A partir de Belém, o movimento pentecostal começou a se espalhar rapidamente por todo o território nacional, impulsionado por um forte senso missionário entre os primeiros convertidos. Já na década de 1920, a obra havia alcançado estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Gunnar Vingren fundou, em 1918, o periódico 'Boa Semente', importante instrumento de comunicação e ensino doutrinário para as congregações que surgiam.
Um dos traços mais marcantes desse crescimento foi o protagonismo leigo. Diferentemente de modelos eclesiásticos que dependiam fortemente de clérigos ordenados e formação acadêmica extensa, o modelo assembleiano valorizava o chamado direto de Deus sobre homens e mulheres simples, muitas vezes sem formação teológica formal, mas cheios do Espírito Santo e zelosos pela pregação do evangelho. Esse modelo, embora tenha trazido desafios de formação doutrinária ao longo dos anos, foi decisivo para a rápida capilaridade nacional da denominação.
Gunnar Vingren retornou à Suécia e aos Estados Unidos algumas vezes ao longo de sua vida, sempre voltando ao Brasil, terra que passou a amar profundamente, chegando a afirmar que desejava ser sepultado em solo brasileiro — desejo que se cumpriu, pois faleceu em 1933, em Uberaba, Minas Gerais. Daniel Berg permaneceu ligado à obra brasileira por décadas, retornando definitivamente à Suécia apenas em sua velhice, onde viria a falecer em 1963, mas guardando até o fim de sua vida um profundo amor pelo povo brasileiro a quem serviu.
O legado teológico e institucional
O legado de Berg e Vingren não se resume ao crescimento numérico, embora este seja impressionante: de dezoito membros em 1911, a Assembleia de Deus tornou-se, mais de um século depois, uma denominação com dezenas de milhões de fiéis somente no Brasil. Mais importante do que os números é a ênfase espiritual que eles imprimiram desde o início: a centralidade das Escrituras, a valorização da oração, a busca sincera pelo batismo no Espírito Santo, e uma vida de santidade prática diante do mundo.
Vingren, homem de sólida formação bíblica batista antes de sua experiência pentecostal, foi cuidadoso em ancorar as práticas pentecostais em bases exegéticas sérias, buscando evitar excessos emocionalistas desprovidos de fundamento bíblico. Berg, por sua vez, era conhecido por sua simplicidade, humildade e disposição prática para o trabalho manual e o sacrifício pessoal em prol da obra. Juntos, representam um equilíbrio raro entre fervor espiritual e responsabilidade doutrinária — equilíbrio que, infelizmente, nem sempre foi mantido pelas gerações posteriores.
Desafios atuais do pentecostalismo brasileiro
Passado mais de um século daquele desembarque providencial em Belém, cabe-nos perguntar: temos sido fiéis herdeiros desse legado? O pentecostalismo brasileiro, hoje um fenômeno social e religioso de proporções gigantescas, enfrenta desafios sérios que exigem discernimento bíblico e coragem pastoral.
- O crescimento da teologia da prosperidade, que distorce a mensagem original de santificação e serviço sacrificial vivida por Berg e Vingren.
- A superficialidade doutrinária em muitos púlpitos, carentes do rigor bíblico que Vingren buscava preservar.
- A politização excessiva de lideranças religiosas, distanciando-se do foco missionário original.
- A necessidade urgente de formação teológica séria para pastores e obreiros, equilibrando fervor espiritual com solidez doutrinária reformada e bíblica.
- A tentação do sensacionalismo midiático em detrimento da simplicidade e humildade que caracterizaram os pioneiros.
É significativo lembrar que Berg e Vingren nunca buscaram riqueza, fama ou poder político. Viveram e morreram pobres, dedicados inteiramente à obra do evangelho. Como escreveu Paulo: "Antes, tudo suportamos, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo" (1 Coríntios 9:12). Que geração alguma de pentecostais brasileiros esqueça esse exemplo fundacional de sacrifício e simplicidade.
Uma obra que ainda continua
A história de Daniel Berg e Gunnar Vingren nos ensina, acima de tudo, que Deus usa vasos simples e disponíveis para realizar propósitos extraordinários. Eles não tinham dinheiro, prestígio acadêmico ou apoio institucional robusto. Tinham, isso sim, uma convicção inabalável do chamado de Deus, um coração disposto a obedecer mesmo diante do desconhecido, e uma confiança absoluta nas promessas das Escrituras.
Como disse o próprio Senhor Jesus: "A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara" (Mateus 9:37-38). Que essa mesma oração continue a levantar, em nossos dias, homens e mulheres dispostos a pagar o preço da obediência, como fizeram aqueles dois jovens suecos, há mais de cem anos, num cais desconhecido do norte do Brasil.
Palavra Final
A história de Berg e Vingren não é apenas um capítulo interessante da historiografia evangélica brasileira — é um chamado permanente à fidelidade. Que possamos, como igreja, resgatar a simplicidade, o sacrifício e a centralidade bíblica que caracterizaram os pioneiros do pentecostalismo brasileiro, sem nos deixarmos seduzir pelos modismos que ameaçam desviar a igreja de sua missão original. — Daniel Filho
