Bíblia aberta em iluminação azul cinematográfica
Voltar para o inícioCristologia

A Glória de Cristo

19 de janeiro de 202418 min de leitura

O puritano John Owen, em sua obra-prima devocional 'A Glória de Cristo', escrita já em seus últimos dias de vida, declarou que a contemplação da glória de Cristo é o meio pelo qual o crente é transformado à sua imagem e preparado para a eternidade. Owen sabia que estava morrendo, e ainda assim escreveu que a visão da glória de Cristo pela fé, aqui na terra, é o mesmo princípio da glória que veremos face a face no céu — apenas em grau diferente. Este artigo pretende percorrer, à luz das Escrituras e inspirado nesse legado puritano-reformado, as diversas dimensões da glória de nosso Senhor Jesus Cristo: sua glória eterna como Filho, sua glória velada na encarnação, revelada paradoxalmente na cruz, manifesta na ressurreição e exaltação, contemplada hoje pela fé, e aguardada em plenitude na eternidade.

1. A glória eterna do Filho antes de todos os tempos

Antes de qualquer coisa existir, o Filho já possuía glória eterna junto ao Pai. Em sua oração sacerdotal, Jesus roga: 'E agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com a glória que eu tinha antes que o mundo existisse' (Jo 17:5). Essa é uma afirmação extraordinária: Cristo reivindica uma glória própria, pessoal, anterior à criação, uma glória que Ele partilhava com o Pai na comunhão eterna da Trindade, antes de qualquer coisa criada existir.

Hebreus 1:3 descreve o Filho como 'o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa'. Ele é, nas palavras de Paulo, 'a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação' (Cl 1:15), por meio de quem e para quem todas as coisas foram criadas (Cl 1:16). A glória de Cristo, portanto, não começou em Belém; ela é tão eterna quanto a glória do Pai, pois Ele é Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, coeterno e consubstancial ao Pai.

2. A glória velada na encarnação

É aqui que o mistério se aprofunda: o Filho eterno, possuidor de glória incomparável, esvaziou-se a si mesmo (Fp 2:7) e veio ao mundo envolto em carne humilde. A glória não foi abandonada, mas velada — coberta pelo véu da carne, como diria o hinário cristão: 'Véu de carne, o Verbo, Deus com a gente'. Isaías profetizou que Ele não teria 'formosura nem beleza' que o fizesse desejável aos olhos naturais (Is 53:2). Nasceu em uma manjedoura, cresceu como carpinteiro em Nazaré, cidade desprezada (Jo 1:46), e viveu sem os símbolos exteriores de majestade.

Ainda assim, de tempos em tempos, raios daquela glória velada perpassavam a carne humana. No monte da transfiguração, 'resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz' (Mt 17:2), e Pedro, testemunha ocular, relembra esse evento afirmando que os apóstolos 'contemplamos a sua majestade' e que Cristo recebeu 'de Deus Pai honra e glória' (2Pe 1:16-17). João também testemunha: 'E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade' (Jo 1:14). Mesmo velada, a glória de Cristo era perceptível aos olhos da fé.

3. A glória paradoxal da cruz

Nada é mais surpreendente na teologia cristã do que a afirmação de que a cruz — instrumento de tortura, vergonha e maldição — é o lugar de maior glória de Cristo. O próprio Jesus, sabendo que se aproximava sua hora de sofrimento, declarou: 'É chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado' (Jo 12:23), referindo-se diretamente à sua morte iminente. E ainda: 'Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele' (Jo 13:31), dito justamente no momento em que Judas saía para traí-lo.

Como pode a cruz ser gloriosa? Porque nela se manifestou, de forma suprema e insuperável, a glória dos atributos de Deus: sua justiça, que não deixaria o pecado impune; seu amor, que entregou o próprio Filho por nós (Rm 5:8); sua sabedoria, que ideou um plano capaz de reconciliar justiça e misericórdia (Rm 3:26); e seu poder, que triunfou sobre os principados e potestades por meio daquilo que parecia derrota (Cl 2:15). Na cruz, a glória de Cristo não é a glória do triunfalismo humano, mas a glória do amor que se entrega, do poder que se manifesta em fraqueza (2Co 12:9), do Rei que reina desde um madeiro.

Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.

Gálatas 6:14

4. A glória manifesta na ressurreição

Se a cruz revelou a glória velada e paradoxal de Cristo, a ressurreição a manifestou de forma triunfante e inequívoca. Paulo afirma que Jesus foi 'declarado Filho de Deus em poder... pela ressurreição dentre os mortos' (Rm 1:4). O corpo ressurreto de Cristo já não estava sujeito à fraqueza, à dor ou à morte; era um corpo glorificado, capaz de atravessar portas fechadas (Jo 20:19) e, ainda assim, real e tangível (Lc 24:39). A ressurreição foi a vindicação pública de que aquele que fora crucificado em fraqueza era, de fato, o Senhor da vida e da glória.

Essa ressurreição não é apenas um evento histórico isolado; ela é o fundamento da esperança cristã e a garantia da nossa própria ressurreição futura, pois Cristo é 'as primícias dos que dormem' (1Co 15:20). A glória manifesta na ressurreição de Cristo é o primeiro fruto da glória que também será dada aos que nele creem.

5. A glória da exaltação e do senhorio universal

Depois de ressuscitar, Cristo ascendeu aos céus e foi exaltado à direita do Pai, recebendo um nome que está acima de todo nome (Fp 2:9-11), de modo que diante dele se dobre todo joelho e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor. Ele agora está assentado 'muito acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro' (Ef 1:21). O livro de Apocalipse apresenta visões gloriosas de Cristo exaltado: os cabelos brancos como lã, os olhos como chama de fogo, os pés como bronze reluzente, e o rosto como o sol quando resplandece em sua força (Ap 1:13-16). Diante dessa visão, o próprio apóstolo João, que outrora se recostara ao peito de Jesus, caiu como morto aos seus pés (Ap 1:17).

Essa exaltação não é apenas triunfo pessoal de Cristo, mas garantia da consumação de todas as coisas sob seu governo. Ele reina agora, intercedendo por nós (Hb 7:25), governando a história, edificando sua igreja, e há de voltar em glória manifesta para consumar seu Reino.

John Owen e a contemplação da glória

John Owen escreveu que a contemplação da glória de Cristo pela fé é o principal meio de graça para a santificação do crente nesta vida, e a preparação necessária para a visão beatífica na eternidade. Segundo ele, quem não se acostuma a contemplar Cristo aqui, pelos olhos da fé nas Escrituras, dificilmente estará preparado para a alegria transbordante de contemplá-lo face a face. A contemplação de Cristo não é atividade de poucos místicos, mas dever e privilégio de todo cristão comum, por meio da leitura da Palavra, da oração e da adoração.

6. Contemplar a glória de Cristo pela fé

Paulo ensina que, mesmo agora, antes da consumação final, os crentes contemplam a glória do Senhor 'como em espelho' e são transformados de glória em glória, na mesma imagem, pelo Espírito do Senhor: 'E todos nós, com face descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor' (2Co 3:18). Esse é um dos textos mais preciosos sobre santificação nas Escrituras: a transformação do crente não vem primariamente do esforço moral isolado, mas da contemplação da glória de Cristo.

Quanto mais olhamos para Cristo — em sua Palavra, em oração, na adoração, na comunhão da igreja — tanto mais somos moldados à sua imagem. Isso ocorre gradualmente ('de glória em glória'), é obra do Espírito Santo, e tem como alvo a semelhança com Cristo. Esse princípio deveria moldar profundamente nossa vida devocional: em vez de concentrarmo-nos exclusivamente em nossos pecados e fracassos, precisamos primeiramente fixar os olhos em Jesus, autor e consumador da fé (Hb 12:2), pois é essa contemplação que produz verdadeira transformação.

  • Contemplamos a glória de Cristo na leitura meditativa das Escrituras, que testificam dele em toda a sua extensão (Jo 5:39).
  • Contemplamos sua glória na oração, aproximando-nos com confiança do trono da graça (Hb 4:16).
  • Contemplamos sua glória na adoração congregacional, quando a igreja canta e proclama seus atributos e obras.
  • Contemplamos sua glória na Ceia do Senhor, que anuncia sua morte até que ele venha (1Co 11:26).
  • Contemplamos sua glória na providência, reconhecendo sua mão soberana guiando todas as coisas para o bem dos que o amam (Rm 8:28).

7. A glória futura: a visão beatífica e a eternidade

Toda a contemplação presente da glória de Cristo, por mais real e transformadora que seja, é apenas antegozo daquilo que nos aguarda. Paulo diz: 'Porque agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido' (1Co 13:12). João escreve, em sua primeira carta: 'Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos' (1Jo 3:2). A esperança final do crente não é apenas ir para o céu, mas ver a Cristo face a face, em sua glória plena e manifesta, e ser transformado definitivamente à sua semelhança.

Na oração sacerdotal, Jesus expressa esse mesmo desejo pelos seus: 'Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, estejam eles também comigo, para que vejam a minha glória que me deste' (Jo 17:24). O desejo mais profundo de Cristo por seu povo é que participemos da contemplação plena de sua glória por toda a eternidade. Essa é a essência da bem-aventurança celestial: não apenas ausência de dor e presença de conforto, mas a comunhão eterna e ininterrupta com o Cristo glorioso, cara a cara, sem véus, sem pecado, sem distância.

Apocalipse 21 e 22 descrevem essa consumação: a nova Jerusalém não precisa de sol nem de lua, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada (Ap 21:23). Os servos de Deus o servirão, verão a sua face, e o seu nome estará em suas frontes (Ap 22:3-4). Essa é a meta final de toda a história da redenção: um povo redimido contemplando, para sempre, a glória inefável do Cristo que os amou e se entregou por eles.

8. Vivendo hoje à luz da glória vindoura

A contemplação da glória futura de Cristo não deve nos tornar alienados da vida presente, mas sim nos capacitar a enfrentar as tribulações desta vida com esperança renovada. Paulo escreveu, em meio a sofrimentos intensos: 'Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente' (2Co 4:17). Aqueles que aprendem a contemplar a glória de Cristo pela fé encontram força para perseverar, pois sabem que a glória que hão de ver supera infinitamente qualquer sofrimento presente (Rm 8:18).

Que a igreja de hoje recupere essa disciplina espiritual tão cara aos puritanos: fixar os olhos em Jesus, contemplar sua glória nas Escrituras, permitir que essa contemplação nos transforme diariamente, e viver na esperança viva de que, em breve, o veremos como Ele é.


Palavra Final

A glória de Cristo é o tesouro mais precioso que pode ocupar a mente e o coração do cristão. Vista velada na encarnação, revelada paradoxalmente na cruz, manifesta triunfantemente na ressurreição e exaltação, contemplada hoje pela fé, e esperada em plenitude na eternidade — essa glória é o que dá sentido a toda a nossa existência. Que possamos, como Moisés, pedir: 'Rogo-te que me mostres a tua glória' (Êx 33:18), e que, ao contemplá-la nas Escrituras, sejamos cada vez mais transformados à imagem daquele que amamos. — Daniel Filho